passarola quer voar

terça-feira, março 9

A Criatura do Poço – 5

- Agarra o elevador, espera por mim… Obrigado! Vais à cave ter com a malta da brigada?
- Vou. Acabaram de chegar.
- Vou contigo. Vim do gabinete dela. A gaja é louca! Alguém tem que a convencer a ir a um hospital.
- Não vale a pena, já tentei… Ia-me matando porque a trouxe de volta. Diz que está óptima e acho que por ela, tinha-se enfiado mesmo dentro do poço…
- Ainda por cima grávida… O que é que disseste ao chefe?
- Ainda não disse nada. Ela fez-me prometer que não contava porque ainda não lhe contou que estava grávida e se eu disser o mais certo é mandarem-na para o laboratório para ser analisada… E pimba, é apanhada e vai direitinha para casa de licença…
- Foda-se! Tu é que és louco!!! Tu viste-a engolir uma cena qualquer que saltou do poço directa à boca dela… e não vais dizer nada ao chefe… Ela não foi analisada quando chegou?
- Não. Eu ainda não disse nada… não quer dizer que não vá dizer. Quando escrever o relatório… E tu vê lá se fechas essa boca até lá.
- Tu és louco! E se ela tiver uma bactéria, um vírus, uma merda qualquer que passe para nós. Já pensaste nisso?
- Não mas… se ela tiver eu também já tenho, fui eu quem a trouxe… Se eu já tenho, tu também já tens… Estás preocupado com os outros, podes sempre atirar-te da janela abaixo para matar a coisa… É isso que queres?…
- Foda-se!!! Tu és completamente irresponsável. Devias tê-la deixado lá, a brigada que a trouxesse com as outras criaturas.
- O que é que queres? Nem pensei… Pareceu-me ver qualquer coisa a entrar-lhe na boca, mas foi tão rápido que não percebi nada. Depois vi-a cair, fui logo agarrá-la. Queria trazê-la para aqui antes que fosse tarde demais… Estava com medo que ficasse como os outros…
- Tu continuas apanhadinho por ela e estás a pôr as nossas vidas em risco… Se eu apanhei alguma cena por tua culpa, foda-se…
- Vamos é ver essa caixa que eles desenterraram, pode ser que nos dê alguma pista…
- Não percebo como é que estás tão calmo.
- Ela está bem, eu conheço-a. Se tivesse alguma coisa eu já tinha dado por isso. E antes disso, tinha ficado desfigurada como os outros e nós com ela…
- E porque é que achas que não lhe aconteceu nada?
- Por causa dos óculos, claro!
- Achas que é esse cubo branco que faz isso às pessoas?
- Não faço ideia. Foi a única coisa que encontraram lá em baixo mas não sei porquê estou com um pressentimento que não é isso que andamos a perseguir e que amanhã vai aparecer num poço novo.
- Tu estás com essa porque achas que é uma criatura viva e o cubo é um objecto… Mas pode não ser. Afinal, alguém conseguiu descrever o que anda lá por baixo?
- Hum… Eu acho que este cubo foi deixado lá de propósito. Uma cena branca de 15 por 15, sem entradas nem saídas… Pode ser uma cena qualquer para nos espiar.
- Que merda é esta? A porta não abre. O elevador encravou?
- Foda-se! Ouviste… Lá fora?
- Aconteceu alguma coisa. ABRAM A PORTA!!!! Tens a arma?
- Afasta-te, vou disparar para abrir.
- Foda-se!
- Está tudo morto…
- Ali… Ele está a mexer-se.
- O que é que aconteceu? Quem é que fez isto?
- O cubo… levaram o cubo.
- Foda-se! Não morras agora!!! Quem é que fez esta merda? Como é que entraram aqui? Para onde é que eles foram?
- Calma, meu. Não vale a pena… Ele já morreu. Vou chamar a segurança.
- Foda-se!
a ser continuada...

Etiquetas: , ,

sexta-feira, fevereiro 19

A Criatura do Poço – 4

- Pára o carro. Estás nervosa demais para guiar.
- Não estou nervosa. Só quero chegar lá depressa.
- Não percebo porque é que quiseste vir… Ainda por cima no teu estado, já devias estar de licença.
- Não vou largar este caso enquanto não perceber o que é que se está a passar.
- Estás a correr riscos desnecessários…
- O que é que isso te preocupa? Já te disse que não és tu o pai…
- Eu também sei fazer contas. O que eu não percebo é como é que não vi que estavas grávida…
- Coisas…
- Já tinhas de estar com uma barriguinha… Mas por mais que puxe pela memória, não vejo nada saliente ou fora do lugar no teu corpo… Antes pelo contrário… Hummm…
- Pára com isso!
- Porquê? É uma bela memória…
- Já te disse para parares com isso! Temos um caso bem mais sério para resolver.
- Ok. E o que é que estás à espera de descobrir aqui?
- Alguma resposta. Porque é que os poços aparecem? O que é que está lá em baixo que faz desaparecer em poucos segundos a estrutura de um ser vivo. E o que quer que esteja lá em baixo, o que é que quer de nós?
- E achas que vais ficar a saber? Temos os mais brilhantes cientistas a trabalhar nisto e ainda não descobriram nada…
- Mas agora temos os óculos…
- …Que ainda não foram testados. Eu não vou olhar lá para baixo e acho que devias fazer o mesmo. Aliás, acho um disparate virmos antes da brigada que vem tapar o poço e recolher os corpos.
- Eu preciso de saber o que é que está lá em baixo.
Pip pip pip pip pipipipipipip
- Estamos perto. Há ali uma saída nessa direcção. CALMA! Vai mais devagar! Queres matar-nos?
- Agora, nem pensar…
- Mete na cabeça que não vamos ficar a saber muito mais do que já sabemos. Foram encontrados nove poços de pedra em nove pontos distantes do país. Sabemos que quem olha lá para baixo fica com o corpo completamente lixado e no entanto continua vivo. Todas as criaturas… quer dizer, pessoas, encontradas por perto só conseguem balbuciar coisas sem sentido sobre os poços, embora os cérebros se mantenham aparentemente com a actividade normal. Sempre que se tapa um poço, passado uns dias, aparece outro…
- Desta vez, nós vamos conseguir chegar antes que o tapem e com os óculos vamos descobrir o que é que se esconde ali…
- Vais. Eu não vou olhar lá para baixo, gosto muito do meu corpinho…
- Não te preocupes. Já tinha percebido que não podia contar contigo.
- Eu vim contigo, não te queixes.
PIPIPIPIPIPIPIP
- Chegámos. Toma. Leva também uns óculos. Pode ser que te dê um acesso de boa vontade.
- Acho que vais preferir que me mantenha sólido para te poder levar de volta depois de olhares lá para baixo.
- Isso não vai acontecer…
a ser continuada

Etiquetas: , ,

terça-feira, janeiro 12

A criatura do poço 3

– Puto, anda cá… está ali um carro. Tu não disseste que a gaja estava aqui sozinha?
– E estava, juro-te. Há um mês que a tenho debaixo de olho e nunca veio cá ninguém…
– Ela já descobriu. Fomos apanhados, melhor é bazar…
– Man, o que é que está ali a fazer um poço?
– Tu não me digas…
– Digo, digo… Foi exactamente ali…
– Porra!
– Mas como é que…
– Um poço não nasce da noite para o dia…
– Ela já o desenterrou…
– Nã… sozinha não conseguia. Aquilo é para disfarçar. Só temos de vigiar para ninguém ir lá antes de nós e desenterrá-lo durante a noite.
– E se ela chamou a policia?
– Achas?
– Sei lá…
– Da-se! Esconde-te. Está qualquer coisa a mexer-se no carro…
– Mas que… merda é aquela?
– Da-se! Da-se! Da-se! Da-se! Nunca mais vou conseguir dormir!
– Aquilo… não é humano.
– Da-se! Vamos bazar!
– Man, controla-te! Aquilo está preso dentro do carro, não vai conseguir sair. Só temos de ir ao poço confirmar que ele ainda lá está.
– E ela?
– Se ela aparecer dás-lhe um tiro nos cornos. Foi para isso que vieste armado.
– Mas… o que é aquilo?
– Não penses nisso, fica atento com a arma na mão e estamos safos.
– Eu já não quero saber. Vou bazar.
– Estás doido? Chegámos até aqui agora vais desistir? Man, assim que o desenterrarmos vamos ser reis… Foi tudo o que planeámos…
– Eu sei, mas não era suposto haver um poço, um carro e MUITO MENOS UM MONTE DE NHANHA ENSANGUENTADA A VIGIAR-NOS DE DENTRO DO CARRO!
– Relax, man. Não precisas de sair daí… Aponta a arma à nhanha e guarda-me as costas que eu já venho.
– Espera! … Da-se! Da-se! Da-se! Da-se! Porque é que ainda vou na conversa do puto?
– Man, isto é mesmo um poço… E lá no fundo está… Ahhhhhhhh…
– Puto, o que é que se passa contigo? Vamos embora… Fala comigo, o que é que tu tens? O que é que está aí no fundo? (…)
Da-se! Eu não acredito que me vais fazer ir aí. Estás a gozar comigo, anda lá embora. (…) Vai te lixar, eu vou bazar.
(…) Porra! O que é que o gajo tem? Da-se! Merda dentro do carro, PÁRA DE OLHAR PARA MIM! Julgas que tenho medo de um monte de esterco?
Da-se! Vou buscar o gajo, ele está a gozar comigo e quando estivermos bem longe daqui VOU DAR-TE UM ENXERTO QUE NEM TE VAIS LEMBRAR DE QUE TERRA ÉS. OUVISTE? … Ó idiota. Mostra lá o que é que está no fundo do poço que te deixou tão… (…) DA-SE! Devia ter bazado!

a ser continuada

Etiquetas: , ,

terça-feira, dezembro 29

A criatura do poço 2

Porra. Como é que eu saio daqui? Não tenho mãos para ligar o carro nem pés para chegar aos pedais. O meu corpo está completamente deformado e ainda não percebi o que é que me aconteceu… O que é que eu vim cá fazer? Aquilo não era ela… aquela criatura da casa de banho… Aquele cheiro nauseabundo, aquele horror ensanguentado. O meu primeiro instinto foi fugir e estava certo… Ela tinha-se transformado num monstro e era por isso que tinha deixado de ir trabalhar e de responder às chamadas telefónicas. Estava esclarecido, podia ir-me embora. Não estava aqui a fazer nada… mas eram os olhos dela… Fiquei congelado a olhar para os olhos dela o tempo suficiente para reparar nos movimentos do gato. Desesperado à volta dela, a roer-lhe qualquer coisa indescritível daquela coisa disforme em que ela se tinha transformado. O animal devia estar com fome. Se não podia fazer nada por ela, pelo menos podia salvar o gato. Aproximei-me com medo, agarrei no gato e foi quando vinha a sair que ouvi a voz dela. Senti um arrepio de medo. Ela estava a falar comigo… qualquer coisa sobre o poço que não quis ouvir. Ainda tentei virar-me para voltar a olhar para ela mas não fui capaz. Fugi dali horrorizado com o gato nos braços e já cá fora, reparei pela primeira vez naquele poço de pedra que nem sabia que existia. Tantas vezes aqui vim, como é que nunca tinha visto o poço? E eu estava já cá fora, são e salvo a procurar o telemóvel no bolso. Ia ligar para as emergências, pôr o gato no carro e sair daqui para fora. A esta hora estaria seguro em casa a tentar dormir. E quando finalmente adormecesse iria ter pesadelos com a imagem dela, é certo… ou daquilo em que ela se transformou, caída no chão da casa de banho a olhar para mim e a pedir-me ajuda, naquela voz que tantas vezes já me tinha sussurrado aos ouvidos. Mas ela tinha-me deixado, tinha escolhido viver ali, sozinha com o gato. Porque é que eu me fui preocupar só porque não respondeu a alguns telefonemas? Como se tivesse sido a primeira vez. Mas não. Estúpido fui lá e, quando já estava cá fora, são e salvo olhei para o poço. Para o poço que já deveria ter visto noutras visitas a esta casa… Como é que nunca o tinha visto? O gato foi mais esperto, deu um salto do meu braço e fugiu logo, com medo. E eu fiquei ainda mais curioso. Estupidamente curioso o suficiente para me aproximar do poço e olhar lá para baixo. Porquê? Porquê? Porque é que não entrei logo para o carro, carreguei no acelerador e então de longe, muito longe daqui, ligava a chamar ajuda. Agora é tarde demais. Agora também eu me transformei num monstro. Resta-me esperar que me venham salvar. Eu avisei que vinha vê-la. Alguém há-de vir e eu hei de alertar para que não se aproxime do poço… Só preciso de descrever a criatura horrível que está lá em baixo para que mais ninguém se volte a aproximar dali…

a ser continuada

Etiquetas: , ,

sexta-feira, dezembro 18

A criatura do poço

Se o meu gato não me tivesse vindo acordar a meio da noite, nunca teria dado por nada. Talvez a noite tivesse passado e eu agora estava a acordar com o despertador, como todos os dias acordo. A levantar-me do quentinho da cama, a reclamar com o frio do inverno e a avançar para esta mesma casa de banho de onde não sei se algum dia terei coragem para voltar a sair. Estaria agora a olhar para o reflexo dos meus olhos ensonados e a ver a imagem de mim que sempre conheci. Eu não sou esta criatura que o espelho reflecte. Eu não quero ser esta criatura que o espelho reflecte… Se pudesse fazer retroceder o tempo doze horas… bastavam-me doze horas, e poderia mandar calar o gato, virar-me para o outro lado e continuar a dormir. Mas não. Acordei, ouvi o barulho e levantei-me. Assustada, mas curiosa, enfiei as botas e um casaco quente por cima da camisa de dormir e fui espreitar à janela.

No meu quintal tinha nascido um poço de pedra!

Assim como nasce um pé de feijão gigante numa história de crianças, no meu quintal tinha nascido um poço de pedra! E o pior, é que não tinha nem galinha de ovos de ouro nem gigante no fundo. O que lá estava era algo indescritível e inimaginável que eu desejava poder nunca ter conhecido. Mil gigantes à criatura que teve o prazer de me desfigurar em apenas alguns minutos. Onze horas e quarenta e cinco minutos. Se voltasse onze horas e quarenta e cinco minutos atrás, ainda iria a tempo de me salvar. Fiquei cerca de quinze minutos a olhar para o poço pela janela a tentar explicar o que estava a ver, a pensar que lá fora estava frio de mais para sair de casa e que de manhã teria mais do que tempo para sair e confirmar que me tinha brotado um poço de pedra no quintal. Mas não resisti à curiosidade. Enfiei umas meias e umas calças quentes por baixo da camisa de dormir, uma camisola de lã por cima, voltei a vestir o casaco e apertei-o bem para me proteger do frio. Saí para o quintal e avancei assustada para o poço. Se voltasse onze horas e trinta minutos atrás, ainda podia afastar-me e voltar para dentro de casa como se nada de estranho tivesse acontecido. Tinha nascido um poço de pedra no meu quintal, ponto final, vamos voltar a dormir. Mas espreitei para o fundo do poço e a partir desse momento de nada me valia voltar onze horas e vinte e nove minutos atrás. Já era tarde demais…


a ser continuada

Etiquetas: , ,