passarola quer voar: Fevereiro 2008

sexta-feira, fevereiro 29

10. Um churrasco molhado

este vem com churrascada e stress... ai os wraygunn e a janta ainda não está feita...

Depois de uma breve separação, voltámos a reencontrar-nos para o prometido churrasco que soprava cheirinhos deliciosos por toda a área. Até o Jeremias fez questão de aparecer.

Estávamos na brincadeira com o Henrique, quando a minha manchinha verde favorita atravessou o terraço em direcção à porta de casa. Atrás dele vinha o Gaudi, a abanar a cauda satisfeito. Entraram pela janela do quarto da Vera, um rastejando pela parede e o outro com um salto no ar. Eu e o Ricardo fomos ter com os nossos bichos pela porta de entrada. Ainda não estávamos no quarto já podíamos ouvir um toque insistente no telemóvel da Vera. O Ricardo foi buscá-lo e veio a correr mostrar-me o visor que exibia o número que já conhecíamos de cor da Residencial 3 Estrelas. Ficou um milésimo de segundo a pensar e fez-me sinal para que o atendesse. Eu abanei a cabeça.

- Não posso!! O que é que a tua mãe ia dizer?
Acho que ainda hesitou em atender com a sua voz electrónica mas nesse momento, a Vera apareceu e o toque calou-se. O Ricardo estendeu o aparelho à mãe que ficou bastante nervosa depois de ver o número. Desligou-o num impulso e, depois de sussurrar o acontecido ao ouvido do marido, voltou para junto dos meus pais.

- Não podíamos atender sem que ninguém desconfiasse. – animei o meu amigo e iniciámos uma volta de reconhecimento pelo local da festa. O ambiente estava animado, a música era agradável e, à excepção do Tomás que se mantinha um bocado distante, toda a gente parecia divertida.

Voltámos a seguir o Jeremias que era seguido pelo Gaudi e fomos dar com o Mário ao telemóvel na parte de trás da casa. Desligou antes que pudéssemos ouvi-lo mas resolvemos segui-lo o resto da noite.

Aproximou-se do Tomás e, dificilmente, lá conseguiu que ele se abstraísse dos pimentos que assavam no carvão e começasse a conversar com ele. Fez-lhe perguntas sobre a casa, se já conheciam a zona, por que é que tinham decidido ir para ali, que era realmente muito agradável e o Tomás lá ia respondendo que sim a isto e não àquilo, pouco entusiasmado.

Antes de eu dizer o que pensava o Ricardo já o tinha escrito no seu computador mas, em vez de o dizer alto, deu-mo a ler:

- Casa? O mistério do Mário também tem a ver com esta casa?

Encolhemos os ombros e, embora achasse aquela coincidência estranha, pensei que nós também podíamos estar a criar ligações que não existiam. De qualquer forma era uma pista a seguir.

O Jeremias e o Gaudi cruzaram outra vez o nosso caminho e foram para dentro de casa. Talvez tivessem reparado nas enormes nuvens negras que escondiam as estrelas e que nos apanharam de surpresa quando começaram a pingar. Talvez se tenham chegado a divertir ao ver-nos correr de um lado para o outro com grelhador numa mão, salsicha na outra, sobremesa para cá e sangria para lá. Foi uma verdadeira aventura socorrer todos as comidas, bebidas e outros apetrechos da grande molha que nos acabou por apanhar a todos.

Com tudo a salvo, a Vera estava prestes a ficar triste por a chuva ter decidido cair exactamente em cima da sua festa quando o Henrique e a minha mãe começaram numa grande brincadeira à chuva.

- Molha por molha - dizia o Henrique - mais vale divertirmo-nos – e puxou a minha mãe para uma dança, em volta das cadeiras molhadas. O meu pai juntou-se a eles a cantar serenatas à chuva e eu, que já estava mais habituada àquelas manifestações familiares, chamei o Ricardo, para uma dança à boa maneira dos índios.

Divertimo-nos à brava, principalmente quando a Vera, que nos seguia da janela da sala, se começou a rir com umas gargalhadas tão altas e tão divertidas, que o Mário e o Tomás acabaram por ser contagiados. Que belo espectáculo devemos ter montado ali, eles dentro da casa a rir e nós cá fora aos saltos. Parecíamos todos malucos.

Estávamos definitivamente a viver o melhor momento da noite quando parou um carro junto ao portão. O Gaudi começou logo a ladrar e pelo tom, percebi que não estava a tentar fazer coro connosco. O Gaudi estava a ladrar ao Simão que se aproximava sorridente.

A Vera e o Tomás foram os primeiros a alterar a expressão. Pararam imediatamente de rir e olharam um para o outro, sem saber como reagir àquela visita.

Enquanto o Simão atravessava o portão, os meus pais entraram em casa, ainda a rir, para se secarem. Ficámos só eu, o Ricardo e o Henrique à chuva, entre o portão e o edifício da casa.
- Parece que vim em boa hora – Disse na nossa direcção, enquanto se abrigava da água no alpendre da entrada.
- Estamos a dedicar esta festa à chuva – brincou o Henrique– quer juntar-se a nós?

Pela janela consegui ver a Vera a acalmar o Tomás, que parecia esforçar-se por conter a sua fúria. O Mário apareceu a espreitar à porta da entrada.

- Com muito prazer! Estava nos arredores quando ouvi risos e fiquei curioso para ver o que se passava. A Vera e o Tomás estão?
- Estão cá dentro – respondeu o Mário – quem devo apresentar?
- O Simão. Sou um velho amigo.
- Muito prazer, eu sou o Mário –cumprimentou interessado.
- Ricardo e Carlota! É melhor virem secar-se antes que se constipem – apareceu a Vera a chamar-nos – Muito boa noite Simão. Como pode ver esta noite temos convidados cá em casa pelo que não o poderemos receber.
- Mas não se incomodem por nós – interrompeu o Mário.
- Eu não quero incomodar mas, fui surpreendido pela chuva e já sabem como são estas estradas à noite, não se vê nada. Então com mau tempo…
- Ah, percebo perfeitamente – concordou o Mário
- Por isso pensei fazer-vos uma visitinha até a chuva parar… - e foi entrando pela casa sem ser convidado. Nós seguimo-lo.

O Tomás emitiu um som tão irreconhecível que até os meus pais, que vinham da casa de banho com duas toalhas na mão, pararam para ver se tinha saído mesmo dele. Sem palavras, o Tomás refugiou-se na casa de banho e a Vera acompanhou-nos, a mim e ao Ricardo ao quarto dele para nos distribuir roupa seca para vestirmos. Já mais quentinhos regressámos à sala onde o Simão entretinha alegremente os meus pais e amigos.

- Isto é que ficou aqui uma bela obra, não é verdade? Foi a Vera que desenhou, a melhor arquitecta com quem já trabalhei!! – A Vera sentou-se sem demonstrar grande entusiasmo com os elogios. Como todos concordaram, o Simão continuou – realmente fiquei com pena de não acompanhar a obra até ao final… Como já lhe disse – dirigiu-se à Vera – tenho mesmo curiosidade em ver os desenhos que fez da casa, uma verdadeira obra de arte.
- Como já tive oportunidade de lhe dizer, as plantas não estão connosco, estão bem guardadas em local próprio. – respondeu contrariada.
- Mas o Simão também é arquitecto? – questionou o Mário.
- Não, sou construtor civil. Tenho construído muita casa por estas bandas mas com as particularidades desta, ainda não encontrei nenhuma. - Eu e o Ricardo seguíamos atentos o desenvolvimento da conversa.

- Assim em linguagem de quem não entende nada dessas coisas – tentou perceber a minha mãe – que tipo de particularidades é que há aqui?
- Essencialmente tem a ver com o terreno sobre o qual está construída Posso mesmo dizer que nunca tinha encontrado um terreno com a riqueza deste! - Olhei para o Ricardo que estava a olhar para mim com os olhos muito abertos. Acenei com a cabeça a confirmar que tínhamos ouvido o que tínhamos ouvido. A Vera semi-cerrou os olhos na direcção do Simão.
- Mas este terreno é diferente de outros terrenos no mesmo monte? – foi a vez do meu pai entrar na conversa.
- Daqueles onde eu já tive oportunidade de construir, é!
- E tem mais vivendas em construção, neste momento? – voltou o Mário
- Ainda não, mas estou a tentar comprar mais uns terrenos por aqui…

- A chuva parou – anunciou a voz grave do Tomás que atravessava a sala para abrir a porta da rua. – Foi um prazer mas pode voltar à sua viagem.

- Bem, parece que as visitas se querem ir deitar – disse o Simão, brincando com uma conhecida “indirecta de fim de festa”. Despediu-se e encaminhou-se para a saída. O Mário fez questão de o acompanhar ao portão e a Vera explicou:
- Peço desculpa por esta situação desagradável mas o Simão é uma pessoa inconveniente.
- Não houve problema nenhum, até me pareceu bastante simpático – consolou o Henrique.
- Este senhor é uma pessoa com quem não tivemos as melhores relações profissionais e por isso gostaríamos que nos deixasse em paz – elucidou o Tomás no seu tom de quem não estava a brincar – Não queria que ficassem ofendidos mas, para mim, esta noite está terminada. Terei muito prazer em que regressem noutro dia – convidou-nos o Tomás a sair.

- Não se preocupe – atencioso, o meu pai levantou-se logo – nós percebemos perfeitamente …
- Também já está a ficar tarde – ajudou a minha mãe.
- Peço mesmo desculpa – ainda acrescentou a Vera enquanto se despedia de nós à entrada.
- Vai ter comigo de manhãzinha – segredei ao Ricardo.

No caminho de regresso descobri que não era a única curiosa da casa. A estranha relação entre o Simão, a Vera e o Tomás foi assunto de especulação até irmos todos dormir.
...

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quinta-feira, fevereiro 28

Tomem lá o rebuçado:



via paulo para todas as obras
e quem é o bacano que apanha boleia, quem é? ;)

Escolha não falta...

... para acabar a semana em bem! Um bocado por todo o lado vão estar a acontecer coisas boas, como podem confirmar nas breves do Juramento sem Bandeira.

Mas... com Sean Riley + Wraygunn no Lux... há que pensar?
e para o fim da noite, que tal um bocado de bailarico?

tipo... até manhã? ;)

quarta-feira, fevereiro 27

Hoje estreia...

É uma peça para 1ª e 3ª idade, :), e é qualquer coisa mais ou menos assim:

O Sr. Olimpo, para além de muito supersticioso, é um homem obcecado com a ordem e a higiene. É por isso que acorda de madrugada para deixar a sua loja impecavelmente limpa e organizada para a grande abertura. O problema é que nesse dia, distraído, entra com o pé esquerdo em vez do pé direito. Ele ainda tenta voltar atrás e recomeçar tudo do princípio, mas a descoberta de um cabelo no chão da sua imaculada loja, vem perturbar-lhe a ordem do dia...

Eu não diria que fui eu que escrevi, diria mais que fui eu que costurei as várias peças das várias ideias que actor, José Mateus, e encenadora, Rute Rocha, já tinham e lhe coloquei umas ligações ao meio. ;) Portanto, uma obra conjunta minha e da Gato que Ladra, à qual também já fiz um link lá em baixo ao fundo da página. Acho que tem coisas muito giras e fico com pena de não ter conseguido acompanhar mais ensaios e de não ir hoje à estreia em Portalegre. Mas vai correr bem! Muita merda Zé, tu és um grande Senhor Olimpo (sem ofensa, ehehehe)!! Força! ;)

O Zé Pedro hoje passou-se!

O que é ele passou que estava ainda demasiado a dormir para o ouvir? Alguém sabe? Mas depois começou a passar a música e acordei logo a rir-me. Grande fonte de inspiração para o dia que me espera! :)

sábado, fevereiro 23

Recomendação da noite...

claro que só podia ser...Bora? ;)

sexta-feira, fevereiro 22

9. A voz do telefone

Aha! Para um fim de semana que se prevê de chuva… um capítulo com um grande gelado de fruta… :)

Durante a viagem para a vila tive que conter a excitação que sentia. Era a primeira vez que tinha alguém ao meu lado tão entusiasmado como eu, com coisas de investigações e isso, dava outra importância ao meu mistério. Desta vez é a sério, somos uma verdadeira equipa de detectives em acção - pensava.

Quem não estava nada entusiasmado era o Tomás. Guiou-nos em silêncio durante todo o caminho até à vila e, nas duas vezes que os nossos olhares se cruzaram no retrovisor, senti-o tão frio que os meus pêlos se eriçaram todos.

Assim que chegámos, eu e o Ricardo fomos para o jardim da praça central. Combinámos que esperaríamos ali enquanto a Vera e o Tomás iam tratar dos seus assuntos. Assim que os perdemos de vista, e sem precisar de dizer palavra um ao outro, dirigimo-nos para a cabine de telefone pública que se encontrava numa das pontas do jardim. Só aí, parámos para falar.

- Trouxeste o número? – Perguntou-me o Ricardo. Enquanto lhe respondia afirmativamente, abri a boca da minha mochila sapo e retirei lá de dentro, o caderno e a minha carteira das moedas. Pus-me em bicos dos pés para estudar o aparelho mas, ainda não tinha chegado a nenhuma conclusão, já estava o Ricardo a dizer que não com a cabeça.
- Não é de moedas. Funciona com cartão. – Escreveu.
- Bolas!! E agora o que é que vamos fazer?… - Saímos os dois da cabine, decepcionados, e sentámo-nos cabisbaixos na relva do jardim.

– Porque é que as coisas nunca acontecem como nós as imaginamos? – Estava eu a perguntar ao ar quando, de repente, o Ricardo deu um pulo, levantou-se, olhou em redor e com um sorriso começou, muito agitado, a apontar para a rua que ficava do outro lado do jardim. Como eu não percebi logo, escreveu:
- E que tal se comprássemos um cartão na papelaria?
- É verdade, ali há uma papelaria!! Eu já venho!! – Gritei de contente e larguei a correr nessa direcção. Em poucos minutos já voltava a acenar triunfante com um valioso cartão cheio de chamadas telefónicas. Voltámos a entrar na cabine e olhámos um para o outro. Com o coração a bater muito depressa, peguei no auscultador e introduzi o pequeno rectângulo na respectiva abertura. Satisfeitos ouvimos um sinal de linha. Respirámos fundo e sorrimos. Voltei a colocar o auscultador no lugar.
- E agora, o que é que dizemos? – Perguntei. O Ricardo fez-me um sinal e escreveu uma frase no computador que me cumprimentou com três vozes diferentes. A primeira era feminina e as outras duas masculinas, todas com tons diferentes.
- A de mulher levanta menos suspeitas – sugeri. Como concordámos, o Ricardo preparou tudo e levou o auscultador para bem perto do computador. Fez-me sinal para marcar o número e ouvimos os dois, com as cabeças muito juntinhas aos aparelhos, um sinal a tocar do outro lado.

O telefone tocou, tocou e, quando ainda não esperávamos, passou para um toque intermitente, de linha impedida.
- Não acredito! – disse eu pessimista, a sentir um beicinho a querer saltar-me dos lábios. Mas o Ricardo fez-me um sinal para não desistir. Voltei a empoleirar-me nos bicos dos pés para marcar o número e desci tão rapidamente que bati com toda a força na cabeça dele. Por pouco, com a confusão, não ouvíamos uma voz a responder do outro lado:
- Residencial 3 Estrelas, boa tarde!

A caneta electrónica do Ricardo deu a ordem à nossa voz feminina – Boa tarde! Quem fala por favor? – Não tínhamos pensado na possibilidade de o número não ser de uma casa particular. O Ricardo encolheu os ombros e ouvimos a resposta – Está a falar com Albano Dias, da Residencial 3 Estrelas, deseja fazer uma reserva?
- Desculpe, é engano – era a última frase que tínhamos preparado para a nossa voz.

Olhámos um para o outro novamente. Está certo que não descobrimos o ladrão mas encontrámos mais uma pista: Quem procuramos está à nossa espera num dos quartos da Residencial 3 Estrelas. Já cá fora, no relvado, o Ricardo fez uma rápida pesquisa na sua máquina e informou-me:

- Esta residencial fica muito perto daqui, na praça do mercado velho. – Apontou-me um pequeno mapa no monitor.
- Então do que é que estamos à espera? Vamos!! – disse eu impulsiva.
- Estamos à espera dos meus pais – dissuadiu-me o Ricardo apontando para a Vera e o Tomás que regressavam na nossa direcção.

Nessa tarde, ainda comemos um grande gelado de fruta na melhor geladaria do mundo e vimos a nossa investigação adiada com um regresso ao monte onde ficavam as nossas casas.
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Constatações sobre Gonçalo M. Tavares

"Por «Berlim», de Gonçalo M. Tavares, deambulam um homem e uma mulher carregando cada um deles um peso às costas - um segundo actor que lhes segreda coisas ao ouvido, como uma espécie de consciência, anjo e demónio." in Diário Digital


Depois de ter ido ver ontem a peça Berlim à Comuna constatei duas coisas. A primeira, já desconfiava desde o primeiro livro que li do Gonçalo, é que ele gosta mesmo de mijar. Mais uma vez temos uma personagem a sentir um enorme prazer em mijar e durante o maior período de tempo jamais visto no teatro, cinema ou mesmo na vida real… mas não se preocupem que não é ao vivo nem em tempo real ;) A segunda é que é o meu escritor/pensador contemporâneo favorito. Tudo bem, tive algumas desilusões mas, quando os primeiros trabalhos são logo muito bons é difícil manter a fasquia. Agora com o Berlim voltei a ter o mesmo deslumbramento que tive com o Jerusalém, o primeiro livro negro que li dele e que amei ao primeiro parágrafo. Gosto da forma directa e violenta com que o Gonçalo M. Tavares retrata o homem, gosto da forma directa e rápida com que ele usa as palavras, gosto do humor negro, gosto da humanização/desumanização das cidades. Gosto!
Mas verdade seja dita que o mérito aqui não é só dele mas das opções de encenação, cenografia, trabalho de actores, de tudo.
E no fim… apetecia ver mais. Apetecia ver muito mais.
Já só está em cena até dia 8 de Março, por isso despachem-se a agendar isso e não se esqueçam que às 4as e 5as o bilhete é mais barato… ;)

quarta-feira, fevereiro 20

música inspiração do dia...

vá lá... tudo a cantar muito alto e a ficar cheio de força para agarrar a vida pelos cornos! ;)


"Don’t lose your grip on the dreams of the past
You must fight just to keep them alive"

Este filme é genial!

Em tudo. Primeiro apaixonamo-nos logo pela personagem principal, que por acaso é também a autora que viveu todos estes acontecimentos e que os soube contar extremamente bem. E a personagem é Marjane Satrapi, que tem dez anos quando se dá a revolução islâmica que muda radicalmente a vida do pais. A seguir apaixonamo-nos pela avó que guarda flores no sutien para cheirar sempre bem… acho que é de experimentar… E ao longo do filme, vamos acompanhando o crescimento desta menina que se vai adaptando às revoluções militares e emocionais da vida dela, no Irão e fora do Irão, que vive acontecimentos difíceis mas que os conta com um sentido de humor tão delicioso que é um prazer ouvi-la. A animação é extremamente simples e, sem grandes efeitos, tem uma capacidade enorme de nos levar, numa só cena, da angústia de peito, à lagriminha no canto do olho para acabar numa gargalhada muito bem metida. Está tudo no sítio certo. Tão no sítio certo que quando começamos a pensar que a história se vai começar a esticar e tornar aborrecida… corta e é um fim de deixar uma tristezazinha na alma mas com um sorriso nos lábios.



O Persepolis é definitivamente um filme que eu quero ter para ver muitas vezes e esta estreia foi definitivamente uma boa aposta da RADAR.

segunda-feira, fevereiro 18

Fui só eu...

... ou mais alguém achou que o céu nos ía cair sobre a cabeça algures entre as 4h e as 5h da manhã? Claro que quando voltei a adormecer tive sonhos estranhíssimos com americanos que vinham em autocarros daqueles duplos de turismo, sem capota, por baixo da tempestade de chuva e trovões em visita guiada à cidade que estava transformada numa grande feira de atracções com rodas gigantes e legos e bonecos disneys tudo em tamanho dos prédios que tinham deixado de existir, com muita música e fogos de artifício a acompanhar os raios.



Animal Collective - Fireworks

sexta-feira, fevereiro 15

8. Entra em cena mais uma personagem misteriosa

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Ainda não tínhamos terminado de jantar quando o Jeremias espreitou à janela. Uma mancha branca que se destacava no seu corpo verde chamou a minha atenção e eu, discretamente, levantei-me da mesa para ir ver o que era. Contornei a casa e encontrei-me com ele do lado de fora da janela. Trazia uma mensagem presa à volta da barriga com uma corda.

Impaciente, retirei-a para a ler:

Vem ter comigo amanhã de manhã.
Tenho novidades. Ricardo

O resto da noite passou muito devagar. Principalmente porque eu queria que o amanhã de manhã chegasse depressa para saber as novidades. Mas é sempre assim, até parece que o tempo faz de propósito para nos contrariar. Se não fossem as histórias que o Henrique começou a inventar para mim, acho que nem tinha conseguido dormir de tão excitada que estava. Acabei por adormecer no sofá da sala para mais tarde acordar na minha cama, para onde o meu pai me tinha levado ao colo. Já era amanhã de manhã! – Foi a minha primeira conclusão brilhante do dia.

Vesti-me a correr, engoli um copo de leite e fui a roer uma maçã no caminho da casa vizinha. Quando cheguei estava a parar um carro que eu nunca tinha visto. Lá de dentro saiu um homem encorpado, não muito alto, de calças de ganga, camisa preta e óculos escuros a quem o Gaudi começou imediatamente a ladrar. A Vera apareceu à porta e não parecia nada satisfeita com aquela visita. Chamou o Tomás que começou a discutir com ele.

De onde estava, conseguia ouvir o som da voz zangada do Tomás mas não conseguia ouvir o que dizia. Via que gesticulava muito enquanto o outro se mantinha calmo e sorridente, argumentando com ele. A Vera estava a segurar o Gaudi que continuava muito inquieto.

Aproximei-me um bocadinho e vi que o Ricardo estava à escuta da janela do quarto. Ele fez-me sinal para que não avançasse mas foi tarde de mais, o Gaudi já me tinha sentido e denunciado à Vera. Com um movimento brusco, libertou-se e veio a correr na minha direcção. A Vera e o Tomás ficaram ainda mais nervosos ao ver-me e desta vez percebi o que o Tomás dizia:
- Vê lá o que a miúda quer e livra-te dela…

Senti um arrepio na espinha e fiquei parada, sem me mexer, à espera da Vera que vinha na minha direcção.
- Olá Carlota. Queres que eu diga ao Ricardo para ir ter contigo?
- Sim, ele está? – tentei fingir o ar inocente de quem não percebeu que tinha chegado em má hora. Olhei para a janela onde o Ricardo ainda se encontrava.
A Vera seguiu o meu olhar e, ao ver o filho a acenar-me, percebeu que já não tinha desculpa para me afastar. Olhou de relance para o Tomás, encolheu os ombros e começou a encaminhar-me para junto do filho. Quando estávamos a passar a entrada, o misterioso visitante fez questão de me vir cumprimentar:
- Mas ninguém me apresenta esta menina encantadora? Eu sou o Simão, um amigo cá da casa.
Num impulso, a Vera abraçou-me, como se me quisesse proteger.
- Prazer, eu sou a Carlota – e estendi-lhe a mão para o cumprimentar com cerimónia.
Ele achou piada e correspondeu. A sua mão suada tinha um toque desagradável. O Tomás tinha-se virado de costas para nós e parecia pronto para rebentar a qualquer momento.
- O prazer é todo meu senhorita, pode ter a certeza que fiquei encantado. Tão encantado que sou capaz de, como por magia, encontrar qualquer coisa…. – e sacou dois chupa-chupas do bolso – Cá está! Um para si e outro para o… - olhou para a Vera enquanto se tentava lembrar do nome..
- Ricardo – anunciou o computador do próprio, da porta de entrada da casa.
- Muito obrigada! - Disse a Vera num tom ríspido e apressou-nos para entrarmos – Deixem-se ficar aqui sossegados que nós temos um assunto urgente para resolver lá fora.

Eu e o Ricardo, olhámos um para o outro e fomos a correr para junto da janela do quarto dele. Tentámos ouvir o resto da conversa mas, infelizmente, os três adultos já se tinham afastado.

- Chegaste mesmo em má hora! – Escreveu o Ricardo.
- Eu percebi mas não adivinhava…Quem é o Simão?
- É alguém que teve qualquer coisa a ver com a recuperação desta casa. Tenho a certeza que ele conhece o terrível segredo e é por isso que os meus pais não gostaram de o ver.
- Conta-me o que ouviste…
- Ouvi o meu pai a correr com ele daqui, a gritar que não o queria próximo de nós e ele sempre a dizer que o melhor era ser bem tratado, que o meu pai só tinha interesse em confiar nele. O meu pai passou-se com ele e contigo…
- Bolas, apanhei um susto! Mas o Simão até pareceu simpático…
- É mas, pelo sim pelo não, é melhor pormos estes chupas no lixo.
- É verdade. Bem pensado usar o Jeremias para passar mensagens, vou fazer o mesmo sempre que precisar. E quais são as novidades de ontem?
O Ricardo sorriu-me, levantou-se e debaixo do colchão retirou duas fotografias que tinham sido rasgadas em mil pedaços e recuperadas com fita-cola. Colocou-mas na mão e voltou ao computador.
- A minha mãe esteve o dia todo a fazer limpezas e eu vi-a rasgá-las e pô-las no lixo.

Eram imagens do terreno no início da construção da casa.
- Estão ambas marcadas com um círculo no mesmo lugar, consegues ver? Acho que pode ser um tesouro.
Ao ouvir falar em tesouro todo o meu corpo reagiu. Saltaram-me os olhos das órbitas e senti uma excitação enorme que me fez estremecer. Olhei para o Ricardo com a boca a abrir e a fechar sem que me saísse nenhuma palavra e pressenti que ele sentia exactamente a mesma coisa que eu. Por momentos ficámos assim, a olhar um para o outro com um brilho nos olhos e um sorriso nos lábios – Qual é a criança que não sonha encontrar um tesouro?

Eu fui a primeira a recuperar a fala.
- E tu sabes onde é que fica o lugar indicado por este círculo? – apontei para a imagem.
- É difícil. Está algures por baixo da casa mas não se consegue perceber onde. A localização exacta deve estar nas plantas que o meu pai guardou.
- O que é que podemos fazer para descobrir?
- Não sei, tenho que pensar melhor neste assunto. E descobriste alguma coisa sobre o telefone?
- Não! Ontem acabámos por não sair. Chegaram uns amigos nossos. – Contei-lhe da alteração de planos e do novo segredo que tinha para descobrir. O Ricardo estava a fazer-me prometer que descobríamos primeiro o tesouro e só depois investigaríamos o outro mistério quando, não podia ser mais a propósito, pela janela vi o Mário a cirandar por ali. Puxei o Ricardo e fomos ao seu encontro. Vimos que o carro do Simão já tinha desaparecido e a Vera e o Tomás conversavam junto a uma árvore.
- Mário – acenei – o que é que fazes por aqui?
- Vim buscar-te para almoçar e, em nome da família, convidar os vizinhos para jantarem hoje connosco. Tu deves ser o Ricardo – disse no seu tom pouco à vontade. O Ricardo confirmou com a cabeça e cumprimentaram-se - Os teus pais estão?

Chamámos a Vera e o Tomás e apresentámo-los ao Mário. Os vizinhos agradeceram imenso o convite mas disseram que agora era a vez deles. Faziam questão de oferecer-nos uma churrascada em casa deles. O Mário ainda argumentou que do nosso lado éramos mais e que isso não era justo mas, acabou por aceder com a condição de que traríamos as bebidas e a sobremesa.
- Se é essa a condição, não temos outro remédio – acedeu a Vera – Quanto a nós vamos hoje fazer uma visitinha ao talho da vila que costuma ter uma carne maravilhosa!!!
Imediatamente dei uma cotovelada no Ricardo e perguntei – A que horas é que vão à vila? Posso ir com o Ricardo?
- Claro que sim! – Sorriu a Vera – Vem ter connosco a seguir ao almoço que nós esperamos por ti.
Eu e o Ricardo sorrimo-nos de orelha a orelha e lemos os pensamentos um do outro. – Então, até logo…
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AH AH AH AH AH AH AH AH!!!

SEAN RILEY a fechar a semana Coimbra, capital do Rock no Zé Pedro Rock & Roll!! É muito bem escolhido porque eles estão aí e estão aí em grande. Se ainda não os viram rockar… não se enganem pelo ar calminho do álbum, quando começam a abrir, dão-lhe e muito bem. O concerto no Lux no dia 29 com Wraygunn vai ser absolutamente imperdível. Eu vou! Grandes Sean Riley! Boa Zé Pedro! ;)



E parece que esta quem ganhou fui eu!! Que estava aí tudo nos Tédio Boys, Tédio Boys, Tédio Boys… os Tédio Boys estiveram lá todos os dias, não precisavam de mais nenhum… Tomem!

quinta-feira, fevereiro 14

O amor é…

… acordar a meio da noite assustada com um pesadelo e pensar na sorte que é ter uns braços fortes mesmo ao lado para ajudar a afugentar os fantasmas e a proteger o resto do sono…

… pensava ela no exacto momento em que ele decidiu afastar o corpo e virar-se de costas para ela… :P

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Dia Bunnyranch!

Confirma-se! :)
... e para mim ficou confirmado que a grande vencedora do rock de Coimbra é a Raquel Ralha. Grande mulher! Ela tem estado em todas, dos Belle Chase hotel, Azembla’s Quartet a Wraygunn, vai-se fazendo ouvir por esses Ep’s de todas as bandas de Coimbra. O Zé Pedro falou nela na faixa que passou dos d3ô, aí não reparei, mas ontem foi dia de Raquel com Wraygunn, claro, e hoje cá estava outra vez a acompanhar os Bunnyranch. Descobri que quando for grande quero ser a Raquel Ralha! (mesmo podendo ser mais nova que eu… :S)



E para não dar a brincadeira já por terminada, o Zé Pedro hoje terminou a dizer que esta era uma das grandes bandas da actualidade de Coimbra… têm a certeza que ele amanhã vai voltar atrás no tempo? Tem falado nos Tédio todos os dias… o que é que ainda pode dizer mais sobre eles… hummmm… percebo a relevância, a escolha óbvia mas gosto da ideia de podermos ser surpreendidos... eheh...

…Falando em Tédio Boys. Já está!!! Já está no iTunes o Pussynest!!!
Para quem não sabe do que se trata: "On their last American tour the Tedio Boys recorded a twisted modern rock'n'roll mutant master piece, entitled ( pussynest ) this release features Kid Congo (Cramps/Gun Club and Knoxville Girls ) - on guitar and Matt Verta-Ray (Speedball Baby) - on saxphone. We've only been waiting almost ten years for this album to be heard…"

Vou já tratar disso... ;)

quarta-feira, fevereiro 13

Dia Wraygunn!

Confirmam-se os Wraygunn hoje mas continuo a achar que o desfecho não é assim tão óbvio. Acho que ao abrir com M'as Foi-se e tendo em conta que os Tédio Boys estão omnipresentes todos os dias :) ... e se não houver um dia Tédio? Será Bunnyranch/Tigerman ou Bunnyranch/Sean Riley? heim? O que é que me dizem?

terça-feira, fevereiro 12

Está visto…

O Zé Pedro dedica a semana às bandas de Coimbra, a passarola dedica a semana ao Zé Pedro Rock & Roll! Mesmo depois da desfeita que nos fez no concerto 100 dos d3o, (os que lá estiveram bem sabem do que estou a falar ;) Mas pronto, o que lá vai, lá vai, e hoje é dia de d3o, com o Tony em grande a rodar na Radar.
Quem perdeu as sessões das 8h35 e das 11h15, ainda vai a tempo de se sintonizar para a das 19h15.
Entretanto, porque foi o Zé Pedro que disse: "o Tony era aquele que se despia…" esses tempos de strip completo não apanhei, mas muito a propósito, aqui fica, para verem ou reverem, um bocadinho do que apanhei deles em Tavira, Maio do ano passado...



Agora, para a malta do costume da primeira fila dos concertos (ok, a Yola deve ganhar) , qual é que acham que vai ser a ordem e as bandas do resto da semana? (2ª M’as Foi-se; 3ª d3ô) Os Tédio já saltaram? Ainda entram? Vamos a apostas? :)

segunda-feira, fevereiro 11

Rock made in Coimbra...

Vocês ponham-se no Zé Pedro Rock n' Roll desta semana... cheira-me que vai ser grande. Para começar, já conseguiu tirar-me da cama a uma segunda de manhã cheia de pica com os Mas Foi-se (? - Foice?)... a da Coca cola billy não encontrei mas olhem lá a relíquia:

domingo, fevereiro 10

A guerra começou!

E com um sinal bem claro. A arma poderosa… MEDO da dimensão do animal capaz de produzir tamanho bombardeamento. A área danificada foi extensa e elas sabem…
elas sabem que numa manhã normal, em dias de temperatura amena… elas sabem que esse é o local exacto onde tomo os cereais do pequeno almoço. Não tivesse acordado hoje ligeiramente mais tarde, teria sido seguramente atingida. Não querem cooperar, não toleram a minha presença aqui. Por mais que lhes mantenha o território limpo, elas querem a exclusividade do espaço.

E não vale a pena enganar-me e pensar que são seres intelectualmente inferiores… A estratégia utilizada comprova que sabem mais sobre mim que eu sobre elas. Elas sabiam que não conseguiria conviver com as imagens dos destroços. Calcularam que para as limpar iria empoleirar-me perigosamente na janela colocando em risco a minha própria vida...
Do prédio em frente, observavam-me, esperando pacientemente a minha queda. Desta vez sobrevivi… mas TEMO pela minha segurança…

sábado, fevereiro 9

Oh pá… deste eu gostei, muito!!!!!

Finalmente um filme cheio de coisas boas como há algum tempo não via… os cenários, as personagens, as ambiências, os PORMENORES deliciosos!! Uma guloseima do princípio ao fim… pronto, tirava as cenas da mãe, mas no meio de tanta coisa boa… adorei!!
Acho que me vai apetecer viajar no The Darjeeling Limited mais vezes! :)

sexta-feira, fevereiro 8

7. Uma visita surpresa com alteração de planos

um capítulo com muitos gelados dentro de um saco térmico e caril de peixe para o jantar...

Depois do almoço, refugiámo-nos os três na tenda branca. Fiquei a ver a minha mãe pintar por um bocado. Ela explicou-me que estava a utilizar na sua pintura as cores e texturas daquela paisagem e começou a cantarolar uma música suave. O meu pai já tinha adormecido sobre o livro e eu, estava quase a adormecer, quando senti a minha mãe a pegar na tela e nos pincéis e a ir para o exterior. Deixei-me ficar e devo ter adormecido.

Acordei com um grande rebuliço e fui ver o que se passava. Junto ao portão estava um carro que eu reconheci logo. Era o carro do Mário e do Henrique, dois grandes amigos dos meus pais que praticamente vivem em nossa casa. Entrei na cozinha e fui inesperadamente agarrada e girada no ar.
- Olha quem é ela!!
- Henrique!! Que surpresa!!
- Pensavas que passavas as férias longe de mim?
- Que bom!! - Abracei o meu actor favorito com muita força – Vieram passar uns dias connosco?
- Sabes que nós não conseguimos viver muito tempo longe de vocês…
- Boa – aplaudi de satisfação e abracei-o novamente.

Estávamos os dois numa grande festa quando o Mário e os meus pais entraram na cozinha. O Mário falava sempre comigo de uma forma muito desajeitada, como se não soubesse como se dirigir a uma pessoa da minha idade.
- Então Carlota, que tal as tuas férias?
Disse-lhe que iam bem, ele sorriu-me, fez-me uma festa na cabeça e chamou o Henrique para o ajudar a trazer uns sacos do carro. O Henrique explicou com o seu conhecido bom humor – Já que não pagamos o alojamento, fazemos questão de vos alimentar…

Trouxeram sacos e sacos e sacos do supermercado e arrumaram tudo nos seus lugares.

Começaram logo a fazer planos para o jantar dessa noite e eu a ver os meus planos a irem por água abaixo:
- Então não vamos jantar à vila?
- Porquê? – perguntou a minha mãe – já não confias nos dotes culinários dos nossos amigos?
- Oh!! Não é isso. É só porque nós já tínhamos combinado…- Disfarcei, mas fiquei mesmo chateada com aquela alteração de ideias. Ainda por cima, com tantos mantimentos a entrarem no frigorífico, os meus pais podiam até pensar não sair de casa nos próximos dias. – Mas amanhã podemos ir comer um daqueles gelados italianos que eu gosto?… - arrisquei.
- É verdade, onde é que está o saco térmico? – Perguntou o Henrique ao Mário – É que também trouxemos um grande abastecimento de gelados de todos os sabores, para todos os gostos…Não queremos que falte nada nesta casa!!…
- Sorte!! – Deixei escapar. Contrariada fui para a piscina. Não quis insistir nessa conversa porque alguém podia desconfiar das minhas intenções, mas fiquei preocupada com aquela questão.

Tentei ficar zangada mas, no meio de tanta gente bem disposta, foi mesmo impossível. O Henrique começou a atirar-me uma bola para se meter comigo e acabou por inventar um jogo para a piscina que envolvia uma bola e um colchão. Ele atirava-me a bola e eu tinha que a apanhar equilibrada em cima do colchão. Parece mais fácil dito do que feito. Na verdade, cada bola que me atirava, era um mergulho certo. Já estavam todos a rir-se às minhas custas quando os desafiei a virem para o meu lugar. O meu pai juntou-se à brincadeira e estabelecemos novas regras. Cada vez que alguém apanha uma bola, troca de lugar com quem a enviou. Já estava eu, o meu pai e o Henrique numa grande galhofa, quando o Mário não resistiu e também se juntou a nós. A minha mãe tinha voltado ao quadro.

Ao cair da tarde já estávamos os quatro exaustos de tanta brincadeira. O Mário e o Henrique decidiram que estava na hora dos preparativos para o jantar e eu, ao sair da piscina, reparei que o Jeremias estava à minha espera, deitado numa das nossas cadeiras de praia. Lembrei-me que tinha uma investigação em curso e que deveria participar ao meu companheiro os últimos acontecimentos.

Tomei um duche rápido e fui com o Jeremias até ao meu quarto. Enquanto me secava e vestia uns calções, contei-lhe dos planos que tinham sido alterados e expliquei que ia agora falar com o Ricardo. Ele olhou para mim, saltou para a frente dos meus pés e começou a encaminhar-me para a rua. Não na direcção da casa dos vizinhos, como eu pensava, mas para junto do sobreiro onde a minha mãe tinha estado a pintar nessa tarde. Tinha coberto a tela com um lençol e estava agora a falar com o Henrique. Aproximei-me devagarinho para tentar ouvir o que diziam.

- Foi de repente. O Mário começou a ter umas reuniões sobre as quais não me falava, uns trabalhos que não me explicava e depois, de um dia para o outro, pára tudo que temos que vir aqui ter convosco. Como se estivesse a fugir de alguma coisa. Não justificou nada…- dizia o Henrique.
- Posso tentar falar com ele mas achas que tem a ver com dinheiro?
- Acho que para arranjar dinheiro para a nova peça se meteu em alguma encrenca…
- E tu não imaginas o que possa ser?… – continuou a minha mãe.

O Henrique abanou a cabeça, encolheu os ombros e concluiu – Eu só sei que ele anda muito nervoso e nós temos que descobrir porquê…

Eu queria continuar a ouvir mas, o Jeremias não me deixou. Deu uma volta e disparou novamente na direcção da casa. Fui atrás dele e encontrei-o na parede do lado de fora da cozinha, junto à janela, de onde se podia ouvir a conversa que o Mário e meu pai estavam a ter no interior.

- Gostámos deles. Vieram cá jantar e até foi uma noite bastante agradável. Quem é que te disse que tínhamos vizinhos novos? – perguntou o meu pai num tom natural.
- Eu vi a casa no caminho – Respondeu o Mário enquanto, nervoso, mexia um refogado – Podíamos convidá-los para jantarem cá amanhã.
- Logo se vê…

O Henrique e a minha mãe voltavam na nossa direcção e eu e o Jeremias fomos para o meu quarto antes que nos vissem.

- Mais mistérios para eu resolver. Já não me bastava um – refilei com o lagarto. – E afinal, o que é que tu queres de mim? O que é que tu sabes que eu não sei? – Fiquei à espera da resposta que não veio. Percebi, pelo cheiro, que já não tinha tempo de ir a casa do Ricardo antes de jantar. – Como é que eu consigo estar em duas frentes ao mesmo tempo? O que era bom, era que o Ricardo viesse ter comigo…

Não foi preciso dizer mais nada. O Jeremias olhou para mim e saiu pela janela para tratar do assunto. Eu fiquei a pensar com os meus botões e a tomar notas no meu caderno.

A Vera e o Tomás escondem um segredo. O Mário tem outro segredo. Até aqui eu vou. Agora, não encontro nada estranho na conversa do meu pai com o Mário. Ele estava um bocado nervoso mas ele está sempre tão tenso, mesmo quando está descontraído. Será que perdi alguma parte importante da conversa?

– Ai, se o Jeremias falasse!! – exclamei alto..
- Se o Jeremias falasse diria: então vamos lá provar esse famoso caril de peixe… - Espreitou a minha mãe para me chamar para jantar. Eu ri-me e lá fui…
...

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O Bailarico Sofisticado chegou à Legolândia...

olhem lá a festarola que o Vitor Junqueira fez a brincar aos legos :P

quinta-feira, fevereiro 7

em répétition

Hoje vou voltar a ser saudável...



aguardo ansiosamente a hora em que vou ficar com dores no corpo todo :P

sexta-feira, fevereiro 1

6. Uma manhã cheia de cumplicidades

Este vem acompanhado de panquecas... numa homenagem ao Petzi, que me deixava sempre com água na boca! :)

Acordei com alguém a bater-me na janela. Meia estremunhada levantei-me e fui ver o que se passava.
- Estás acordada? – perguntou-me o Ricardo com um ar sério.
- Agora estou! – Respondi-lhe sem ter tido tempo de me lembrar de tudo o que tinha acontecido.
- Preciso de falar contigo – escreveu.
O mais depressa que pude, enfiei-me no fato de banho, lavei a cara e fui ter com ele à parte de fora da casa. Sentámo-nos ao pé da piscina e ele começou logo a falar.
- Estiveste ontem em minha casa?
Respirei fundo e tentei perceber primeiro o que ele queria saber – Estive contigo, lembras-te?
- Dentro de casa?
Fiquei a olhar para ele sem saber o que responder.
- Isto é teu, não é? – nas mãos tinha um pequeno gancho vermelho com uma joaninha. Automaticamente levei as mãos ao cabelo e percebi que o tinha perdido sem dar por isso.
- Onde é que estava?
- Debaixo da cama dos meus pais.
- Foi a polícia?
- Não, fui eu que o encontrei. Não disse nada a ninguém.
- Se calhar foi o Gaudi - disse eu já muito vermelha. O Ricardo não me respondeu e continuou a olhar para mim, muito sério.
Engoli em seco e menti – Sabes que eu sou muito coscuvilheira e fiquei curiosa para ver a casa por dentro..
- No jantar em tua casa, estavas a espiar os meus pais, não estavas?
Foi aqui que percebi que não valia a pena tentar enganá-lo - Não é bem espiar, estava a falar com o Jeremias e ouvi qualquer coisa sem querer.
O Ricardo olhou para mim um bocado e, finalmente, perguntou – O que é que ouviste?
- Qualquer coisa que tinha a ver com um segredo…
- Ouve Carlota, é muito importante para mim que me digas tudo o que sabes..
- Foi por causa de mim que chamaram a polícia?
- Eu conto-te tudo o que sei se me prometeres o mesmo.

Num repente contei-lhe tudo. Como tinha ouvido o seu pai dizer que guardava um segredo terrível sobre o qual não podia falar e depois, contei-lhe a estranha conversa telefónica que tinha ouvido. Disse-lhe que tinha uma pista mas que só lhe mostrava depois dele cumprir a sua parte. Era a sua vez de me contar por que é que a polícia tinha sido chamada:

- Quando chegámos, a casa estava um caos, com tudo remexido, coisas partidas, armários abertos, gavetas esvaziadas. Foste tu?
- Não – respondi logo, meio escandalizada com a pergunta, meio aliviada por perceber que não tinha a polícia atrás de mim..

- E foi por isso que os meus pais chamaram logo a polícia. Alguém esteve lá em casa à procura de uma coisa que não encontrou.
- O quê? – perguntei logo muito curiosa.
- Tenho que explicar-te tudo desde o princípio. – e parou de escrever porque os meus pais vinham ao nosso encontro.

- Bom dia! Fizemos panquecas para o pequeno almoço. Vocês já comeram? – Perguntou a minha mãe e cumprimentou-nos aos dois com um beijinho na testa.
O meu pai perguntou ao Ricardo como estavam os pais dele e convidou-os a aparecer quando quisessem – Já sabem, nós gostamos de ter a casa cheia!!

- Mas o que é que estão à espera? – reforçou a minha mãe enquanto experimentava a temperatura da água da piscina – as panquecas estão a chamar-vos em cima do balcão. Podem atacar!

- Fixe!! – Era a oportunidade que eu esperava e arrastei logo o Ricardo para a cozinha.
- Podes continuar que agora só saem da piscina quando sentirem fome…- disse eu e tirei do armário o doce de morango para rechear as panquecas. Comemos deliciados e o Ricardo contou a sua história.

Tudo tinha começado muito tempo antes. De um momento para o outro, os seus pais começaram a falar às escondidas, cheios de sussurros e segredos. No início o Ricardo pensou que o problema era com ele. Como os pais nunca tinham parado de procurar soluções para a sua mudez, considerou a hipótese de alguma operação demasiado cara que algum médico recomendara ou algum tratamento no estrangeiro.

Acreditou nisso e sentiu-se culpado pelo mal estar dos pais até ao dia anterior. Depois da conversa telefónica que a Carlota tinha ouvido, o Tomás veio buscar repentinamente a família para um passeio até um banco que ficava na vila. Debaixo do braço levava as plantas da casa de campo.

- Vi e ouvi o suficiente para perceber que todo este segredo tem a ver com aquela casa. – concluiu.
- E conseguiste ver as plantas?
- Ainda não, o meu pai guardou-as num cofre no banco. Acredita que é atrás delas que anda o nosso ladrão.
- E a polícia, o que é que disse?
- Não disse nada. Andou a vasculhar, registou a queixa e foi-se embora sem adiantar muito.
- É o normal…
- Mas os meus pais não lhes contaram nada sobre o segredo… eu estive com atenção..
- Então já temos mais pistas do que a polícia. Ainda vamos encontrar o ladrão primeiro!
- Por falar em pistas, disseste que tinhas uma.
- Espera um bocadinho – levantei-me e fui ao meu quarto buscar o pequeno caderno onde tinha guardado o número de telefone – Olha! Este é o número que a tua mãe escreveu ontem. Acho que nos pode levar ao ladrão.

O Ricardo escreveu qualquer coisa no computador que a voz electrónica não leu. Continuou a escrever com a sua caneta, sem se ouvir palavra.

- O que é que estás a fazer? – Perguntei enquanto, empoleirada num banco, começava a lavar os nossos pratos sujos de panquecas com doce.
- Fiz uma pesquisa na Net com estes números mas não deu nada – Pensou por mais uns momentos e voltou a escrever – Temos duas coisas para descobrir. A primeira é a quem pertence este número e a segunda é o que escondem as plantas da minha casa.
- A primeira é fácil, é só ligar.
- Sim, mas não pode ser de qualquer telefone. O ladrão pode descobrir o número.
- Já sei. Hoje eu e os meus pais vamos jantar à vila. Lá há uma cabine pública, posso usá-la.
O Ricardo aplaudiu a minha ideia e escreveu – E eu posso tentar descobrir entre os projectos da minha mãe se há alguma dica do que possa estar escondido nas plantas.
- O que é que a tua mãe pode ter? – perguntei sem perceber muito bem a ideia dele.
- É que foi a minha mãe quem as desenhou. Ela é arquitecta.
- Boa!! – exclamei satisfeita com os nossos planos.

Acabámos a manhã com muitos mergulhos na piscina e quando o Ricardo se foi embora para almoçar, senti-me mesmo feliz por ter desabafado com ele. Era a primeira vez que tinha um cúmplice nas minhas investigações.

...

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Séries que estou em pulgas para ver…

Finalmente! A primeira vez que vi o Bocage, antes de sonhar que iria parar a um workshop com o Filipe Homem Fonseca pensei de mim para mim: assim sim, num projecto destes eu ia gostar de trabalhar… Pela linguagem, pela ficção criada para contar a História, pela qualidade do projecto, pelos actores, pela realização, pela acção, por tudo. Ignorante, fui para o workshop sem saber que o Filipe era um dos co-argumentistas (do Mário Botequilha já conhecia trabalho em teatro e já gostava) e até arregalei os olhos quando ele falou nisso. Depois soube que estavam a trabalhar num novo projecto para comemorar o centenário do assassinato do Rei D. Carlos, O Dia do Regicídio, e rejubilei! :)
Finalmente, vai
hoje para o ar um making off, lá para tarde e a horas em que o pessoal deve estar todo nos copos, e amanhã, depois e depois (dias 2, 3 e 4 às 21h30, dizem) a própria da série. Toda de enfiada para não termos de esperar mais. Depois, resta esperar que repitam em datas menos festivas!

A outra, muitos de vocês já devem conhecer, mas eu, mais desligada da Tv e ligada à rádio, não. Apanhei a apresentação e fiquei super curiosa. Até porque há muito tempo que não vejo uma boa série no horário das 22h30 da Dois, para mim é o horário perfeito durante a semana para ver um bocado de TV e já tenho saudades. Portanto, também quero ver a estreia do Dexter na próxima quarta-feira.

Entretanto… hoje há Bailarico Sofisticado no Left.

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