passarola quer voar: Agosto 2006

quinta-feira, agosto 31

Odeio ser “etiquetada”...

Mas como sou uma criatura de sorte..fui “etiquetada” no National Hate Day e assim posso ser uma “spoiler” e justificar-me com o dia.. eh! eh!
Isto porque.. odeio etiquetagens, rótulos e todo o tipo de catalogações.. Gosto de manter as perspectivas em aberto sobre aquilo que fui, sou e posso vir a ser.. e o mesmo em relação aos outros.. basicamente, gosto de surpreender e ser surpreendida...
E ..se não gosto de ser “etiquetada” - embora esteja a ter muito prazer em conhecer-vos a todos :) – também não vou etiquetar ninguém..mas lanço-vos um desafio, principalmente àqueles que não me conhecem pessoalmente ou que me conhecem há pouco tempo.. etiquetem-me vocês...
.. ou seja, se tivessem que me atribuir um adjectivo.. que adjectivo escolheriam?

Para quem me quiser oferecer um adjectivo menos simpático..aproveitem hoje até às 24h..a partir de amanhã, posso ficar ofendida ;) ...

terça-feira, agosto 29

Vamos a la playa?

Enquanto muitos de vocês trabalhavam.. hoje passei mais uma manhã maravilhosa na praia. A temperatura estava excelente.. (a partir de uma certa hora, mais excelente ainda na sombrinha do guarda sol), o areal não povoado à minha volta.. extensíssimo, o ar cheirava a maresia e o som, era mesmo o do mar e das gaivotas, a quem tínhamos de pedir licença para dar um mergulho. A água, embora fria à primeira tentativa..estava cheia daquelas ondas deliciosas que, ora nos obrigam a mergulhar, ora nos embalam num sobe e desce divertido... só faltaram mesmo os kyte surfers para compor a paisagem .. mas a falta de vento assim o determinou.. ;)
Ainda em maré de recordações, lembrei-me dos tempos em que os meus pais nos levavam em matilha, irmãos, tios, tias, primos e primas..para as populares férias em Benidorm.. mais exactamente para aparthoteis de grande beleza arquitectónica com vista para o empreendimento da frente (não é só por cá que se planta merda na paisagem...).
Nesses tempos, o grande hit era este.. alembram-se?

A não perder...

Acabei de espreitar as aventuras de Conan O’Brien para chegar à Cerimónia dos Emmys e está espectacular.. não ponho aqui porque salvo erro parece que é retirado do You Tube com a mesma rapidez com que lá é colocado mas.. sigam as recomendações do Filipe H Fonseca e façam busca por "Emmy 2006 Intro", ou "Emmys 2006".. vale mesmo a pena!! Eu vou espreitar mais umas coisas enquanto posso...

segunda-feira, agosto 28

O meu momento Radar da noite..

sexta-feira, agosto 25

Ainda com espírito missionário...

... desculpem voltar ao mesmo tema mas..descobri isto no You Tube e é delícioso... tenho mesmo de partilhar convosco.. o som tem problemas, mas atentos na bonecada.. muito fixe!!

O meu visitante nocturno...

..entrou-me assim pela janela..
heeeeHop! heeeeHop!
Fui ver..era o Flip...
.. da Abelha Maia, lembram-se?


..exibiu o seu porte...


.. a sua elegância...


... e foi-se embora sem se despedir...

quinta-feira, agosto 24

Desafio: A primeira lágrima cinéfila..

A propósito de todos os nossos posts sobre cinema e músicas que ligadas a determinados momentos de um filme ou de uma série nos emocionam.. com uma intensidade que talvez nunca chegassem a atingir se estivessem separadas, música para um lado, cena para o outro..dei por mim hoje na praia a tentar recordar o primeiro filme que me fez chorar verdadeiramente, profundamente, sinceramente...

Primeiro, claro que me lembrei da morte da mãe do Bambi..mas a este momento não linko nenhuma música em especial e se o voltar a ver..desconfio que já não me toca..
E assim fiquei por uns momentos..com os olhos entretidos nas proezas e qualidades dos homens com asas de papagaio e pinta de super heróis (kite surfers, eh eh), e a cabeça a vaguear pelas minhas mais antigas memórias de lágrimas cinéfilas.

Cheguei a este filme e acredito que foi mesmo o primeiro que, não só me fez chorar, como me enrolou o coração numa angústia apertadinha, daquelas que voltam sempre que o revejo ou .. sempre que lhe volto a ouvir a banda sonora.

Quando o vi pela primeira vez, ainda não devia ter idade para compreender a história do filme. A prova disso é que, quando o voltei a ver em adulta, só me lembrava essencialmente das cenas boas, dos momentos em que gangsters e amigos comemoram os seus sucessos, quer na fase infantil, quer na fase adulta. Das cenas difíceis ..só tinha guardado mesmo esta: a cena em que o gangster mais pequenino morre. Por ser tão forte, quer em termos de imagem, de momento, de narrativa, de tudo.. eu nunca a consegui esquecer. E a música entra mesmo a duplicar, triplicar, quadriplicar.. a emoção da cena.

É por isso é que voto esta cena (infelizmente não encontrei no You Tube) como a cena que mais me emocionou na minha história com o cinema e a banda sonora como uma das minhas favoritas.



Agora lanço-vos o desafio.. qual foi a primeira conjugação de cena cinéfila /banda sonora que vos fez chorar?

terça-feira, agosto 22

- Ajude-nos..por favor!!...

- ... (um casal de velhotes, tipo Testemunhas de Jeová, os dois visivelmente nervosos a bater à minha porta)... deixe-nos entrar..depressa!!
- Se é por causa da palavra de de.. (deram-me um empurrão e forçaram a entrada) ..Hei!! O que é que estão a fazer?? (assustei-me)
- Alguém nos viu entrar? (o velhote correu para a janela e espreitou)
- Nnnão vi ninguém.. (o medo a saltar-me pelos olhos)
- Não tenha medo..podemos confiar em si? (a velhota falava baixinho)
- Aaacho que sim... (os meus olhos ainda esgazeados)
- Descobrimos a verdadeira palavra
- divina? (são loucos..vão-me fazer mal)
- sim..tudo o que têm dito é mentira..a verdadeira palavra tem-se mantido oculta, escondida, protegida ao longo de milénios por uma resistência secreta..
- resistência secreta? Verdadeira palavra (fiquei confusa)
- disfarçadamente transmitida através da música..dos filmes..dos livros..
- Shiuuuuu!! Não digas nada.. (o velhote calou-a) despistámo-los..já podemos seguir.. (avançaram para a porta.. eu estupefacta)
- Ouça (a velhota deixou-me um CD) ..passe a palavra...

Romance & Cigarettes

Já desde a estreia que eu andava com vontade de o ver. Depois..por uma ou outra razão, a coisa foi sendo adiada e só hoje, ao ver o post da curse of millhaven é que decidi que tinha mesmo que ser. Oito e meia da noite, uma rápida combinação de messenger, um jantar engolido à pressa e lá troquei as voltas às imperiais na esplanada por uma ida ao cinema com os vizinhos. A cena do musical preocupava uma das minhas vizinhas e algumas opiniões menos favoráveis, lidas aqui e ali, também me tinham deixado um bocado apreensiva. Por isso, assim que o Gandolfini abriu a boca para começar a cantar, eu pensei que estava tudo estragado..é agora que isto vai começar a correr mal..achava eu.. mas não..As cenas musicais são, não só deliciosas, como deliciosamente incorporadas no filme, no texto, nas personagens..em tudo.. O absurdo das situações, a poesia dirty, as coreografias, as personagens..tem momentos hilariantes, inevitabilidades tristes..e uma catrefada de gente fantástica.. enfim..muitas boas razões para o irem ver. Pessoalmente só achei o final um bocado esticado de mais..eu gosto das resoluções mais rápidas.. e fiquei preocupada por ter perdido o rastro do cão (a quem já viu – alguém percebeu o que lhe aconteceu?)
Eu cá gostei muito e já fiquei a dar à perna..que no fundo, no fundo..até que gosto mesmo de musicais......lalalarilala..

segunda-feira, agosto 21

Para todos os que já têm tantas saudades como eu..aqui fica o link no You Tube... para ver em repeat...

sexta-feira, agosto 18

Bird girls can fly

Com a recomendação da Betty Coltrane, aqui fica uma música para a passarola.
Antony and the Johnsons - Bird guhl - I am a bird now



Obrigada Betty! ;)

quinta-feira, agosto 17

A Inevitabilidade

Cansada de viver uma vida inconsequente no seu mundo imaginário, resolveu fazer as malas e regressar à vida real. Fez um longo esforço para ver as coisas como elas realmente eram e conseguiu fechar aquela pequenina porta do cérebro que dava para a imaginação. No entanto, a contrariedade do espírito começou logo a revelar-se no corpo. Primeiro foram as pequenas pintas vermelhas que timidamente surgiram aqui e ali, e que rapidamente se alastraram a todos os centímetros da pele que lhe cobria os ossos. Depois os inchaços, nos pés, mãos, face .. e, por último, a inevitável queda do cabelo, fragilizado pelas agressões do dia a dia. Chamaram os médicos da realidade.. mas estes, pouco souberam acertar e o seu estado ia piorando de dia para dia. O corpo recusou-se a reagir e já nada havia a fazer por ela quando decidiu entreabrir aquela porta para chamar um médico imaginário. “minha querida...” – os médicos do mundo imaginário, além de giros são todos extremamente carinhosos – “... a tua doença é bem conhecida no nosso mundo. Sofres de alergia aguda às coisas da realidade e é urgente que voltes imediatamente comigo.” Pegou nela ao colo e transportou-a para além daquela porta. Pelo mundo real deixou o seu corpo.. imóvel, morto numa cama.

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quarta-feira, agosto 16

Que tontos!

Estava muito bem a comer uma sardinha quando ela se precipitou para o meu goto..
Apesar de pequenina, não quis passar despercebida..picou de um lado..picou do outro e, já mais ambientada, acomodou-se do lado direito. Satisfeita com a sua nova casa, sentou-se à espera da entrega do material para a decoração. “Nunca mais?.. Mas.. de que é que esta pessoa está à espera?” Impaciente, voltou a dar uma picadinha do lado esquerdo e, não conseguindo reacção decidiu que tinha de ser mais agressiva. Preparou-se uma vez, preparou-se duas.. e zzuuttt...... lançou-se como uma seta ao lado direito da garganta. Não teve que esperar muito tempo até ver passar uma verdadeira cascata de água.. “hummm refrescante..mas a minha ideia não é bem essa..” Era preciso provocar mais um bocadinho..por isso, sem sair do mesmo lugar, começou a abanar o corpo..não iria parar até obter aquilo que queria. E, assim foi...
O miolo do pão mastigado, chegou sob a forma de uma pasta moldável a que ela logo se agarrou. “Ahá!” Forrou a zona escolhida e preparou-se para dormir..
“Que tontos!” Foi o último pensamento da espinha antes de adormecer. Provavelmente por saber de experiência vivida, que as espinhas nunca chegam a desaparecer da nossa garganta..simplesmente deixamos de senti-las, por dormirem embrulhadas no pão..

segunda-feira, agosto 14

Casas... com futuro?

Ao sorrir para o sistema de identificação, ele sente-se feliz por viver nestes tempos onde já não é necessário tocar em chaves porcas para entrar em casa. A casa digital abre-lhe a porta.

Ela poisa na rua suja os sacos do supermercado, enquanto procura as chaves dentro de uma mala cheia. Abre a porta da sua casa tradicional.

Ele despe o fato e coloca-o na sua lavandaria automática. Quando regressar, já estará lavado e passado sem esforço nenhum.

Ela retira as mercearias do saco. O pacote de farinha vem aberto e desfaz-se no chão da cozinha. Ela corre a comprar um novo, sem reparar nas pegadas que deixa pela casa.

Ele serve-se de um copo de whisky e põe luvas para comer um amendoim. Deixa cai-lo ao chão e entra em pânico. Respira de alívio ao vê-lo ser rapidamente aspirado.

Ela está à frente do fogão. O azeite espirra-lhe para o cabelo, o cheiro do refogado invade a casa.

Um cheiro a Jasmim informa-o que recebeu uma mensagem no telemóvel. Repara nas horas, é melhor começar a preparar-se. Deixa o copo sujo directamente na máquina de lavar.

Espirra com vontade quando, ao abrir o pacote, o tomilho lhe salta para o nariz. O pó verde espalha-se pela cozinha.

Veste uma roupa impecavelmente limpa, penteia-se, perfuma-se e sai.

Estende a toalha na mesa e repara numa nódoa de vinho. Põe a cesta de pão em cima. Ele não vai reparar..

Estaciona o mais perto possível da porta. Não suporta andar em ruas porcas.

Prova o tempero das azeitonas. Fica com um bocado da azeitona preso no dente. Olha para o relógio, já não há tempo para tomar banho..

Ele toca à campainha dela. Ela abre-lhe a porta sorridente.

quinta-feira, agosto 10

O Beijo

Ela tinha esperado por esse momento a noite toda. O jantar, o vinho, a música, o ambiente.. começavam a provocar os seus efeitos. Ele começou a aproximar-se devagarinho e o corpo dela agitou-se, desejoso dessa proximidade. Ele ia finalmente beijá-la. Era o momento perfeito e tinha sido o beijo perfeito não fosse ter chegado acompanhado do terrível hálito a cebola e alho com que ela excessivamente temperara a carne...

quarta-feira, agosto 9

Com amor

Ela – Porra! Deixaste a cozinha toda cagada!
Ele – Não me venhas chatear com essa merda..
Ela – Quantas vezes é que já te pedi isso?.. Tu achas bem? Que chegue cansada e ainda tenha que ir limpar a merda que tu fazes..O que é que te custa, pá?
Ele – O que é que me custa? – abre a porta do forno – o que me custa é que estive a fazer esta merda para ti e agora sabes o que é que me apetece fazer com isto..sabes? – com um pirex fumegante de lasanha na mão.
Ela – Eu cozinho para ti todos os dias e não deixo ..
Ele – ..gostas não gostas? - mostra-lhe bem o conteúdo do pirex
Ela – Não fizeste mais que a tua obrigação..
Ele – atira com força o pirex na direcção do chão que se parte, espalhando lasanha por todo o lado – então, bom proveito..
Ela – Arrr.. meu nhhhhh.. vem já limpar esta merda toda...
Ele – ah.. tens piada..
Ela – começa violentamente a varrer os restos de lasanha para o lixo – eu vou limpar isto.. mas tu vais pegar nas tuas coisas e vais-te embora..nunca mais te quero ver..
Ele – A última vez que dei por isso era eu que pagava a renda..
Ela – odeio-te - ..começa a chorar – .. sniff ...
Ele - ...
Ela – porra.. sniff.. e tudo isto.. porquê?.. tu nunca fazes o jantar..
Ele – Foda-se! .. – corre para o caixote de lixo - .. o tomate?
Ela – sniff.. o quê?
Ele – remexe no lixo - Foda-se! Um tomate pequenino que estava de lado a enfeitar o prato..
Ela – encolhe os ombros..- snif..
Ele – retira um pequeno tomate do meio do lixo – Ufa! – abre o tomate e tira lá de dentro um anel de noivado – Era para ti...
Ela - ...
Ele – então, que porra..casas ou não casas?
Ela - ...

segunda-feira, agosto 7

Ela deixou-me!!!

De um momento para o outro, sem aviso prévio..ou qualquer coisa que me permitisse adivinhar.. depois de tantos bons momentos que passamos juntas..os passeios..os desvios, as aventuras..e porquê..não podias ter ficado comigo? Só até ao final do verão... E os últimos dias.. ai os últimos dias foram tão intensos..tantas aventuras, desvios, passeios.. estava tudo a ser tão bom...até àquele milésimo de segundo.. aquele milésimo de segundo tão rápido, tão desconcertante..que nem me deu tempo de reagir.
O momento era perfeito.. partilhávamos um mergulho naquele rio paradisíaco, iluminadas por um belíssimo sol vermelho prestes a despedir-se, quando...
...cansada de carregar com o peso do meu corpo, a minha chinela amarela resolveu abandonar-me!

sexta-feira, agosto 4

Uma aventura fresca numa noite quente de verão

Acordei a meio da noite com o que me pareceu ser um tremor de terra na cozinha.. levantei-me e fui ver o que era. Numa qualquer troca de identidades de electrodomésticos o meu frigorífico estava a entrar numa fase de centrifugação própria das máquinas de lavar roupa. Ainda não é altura para pedires reforma – disse-lhe eu enquanto lhe abria a porta para tentar perceber o que se passava. Cá fora estava um calor terrível por isso, não é totalmente de estranhar que não tenha oferecido resistência àquela força fresca que me puxou para o seu interior. Num segundo senti, primeiro o peito, depois a cabeça e braços e por último as pernas, a serem puxadas e reduzidas a 7% do seu tamanho normal.

Tinha poucos centímetros de altura e estava na prateleira de cima do meu frigorífico.

Rodeada por pacotes de iogurte e algumas tupperwares com os restos das refeições do dia anterior, fiquei por ali até perceber que vinha música da prateleira debaixo. Estranho? Curiosa, comecei logo a pensar na melhor forma de descer. Ainda estava a uma altura grande para o meu tamanho e uma queda dali de cima poderia ser violenta. Deitei-me de barriga para baixo e, por brincadeira, deixei os braços caírem naquela direcção..qual não foi o meu espanto ao vê-los esticarem e esticarem e esticarem até às minhas mãos sentirem que podiam agarrar bem agarrada aquela prateleira distante.
Com um impulso..upa..já lá estava, bem no meio de uma plateia de legumes que, satisfeitos, assistiam à actuação de duas beringelas acompanhadas por uma courgete e alguns cogumelos. Cantavam .."when you’re smiling...the whole world smiles with you...pana nana nã .." uauuu...conhecia bem o tema e comecei logo a dar à perna. De repente, o palco foi invadido por uma big band de ovos à altura das que se faziam ouvir nos anos 20/30 e eu não resisti a dar uns saltinhos de dança que me fizeram levitar como se por magia a gravidade tivesse perdido a força. Ah!! Que fixe! Dei umas cambalhotas e umas piruetas no ar e fui aterrar bem na prateleira do fundo do frigorífico. Levei algum tempo a perder o sorriso e a perceber que aí o ambiente era completamente diferente. Um tomate tinha morrido e uma alface, algumas cenouras e muitos amigos tomates choravam algumas lágrimas. Olharam para mim como se me culpassem da inutilidade daquela morte e eu fiquei paralisada, com um mau pressentimento. Começaram a avançar na minha direcção com cara de legumes poucos amigos e o meu coração disparou de medo...

Olhei para um lado e para o outro sem saber o que fazer..aiii..os assassinos aproximavam-se cada vez mais, preparados para me refogarem bem picadinha quando, num acto de desespero, experimentei esticar os braços. Boa!!.. Ainda funciona..vi os meus braços crescerem até à prateleira de cima e ..ala que se faz tarde... Um andar acima, ainda evitei respirar até ter a certeza de que não me seguiam. Fuuuuu!!! Respirei de alivio e, ainda a medo, olhei em volta. Mas o meu corpo continuava inquieto e percebi que a tensão me vinha agora dos olhos. Senti-os a quererem saltar e ainda demorei algum tempo a perceber o que se passava.. aaah.. o prato dos queijos apanhou-me desprevenida e foi mais forte do que eu. Num impulso, soltaram-se-me da face, escorregaram-me pelos braços e rodaram exactamente até ao centro do prato. Agora era a minha boca que também queria ir mas eu não podia deixar. Cega.. farejei o caminho até aos queijos, onde recuperei os olhos e deleitei a boca. Ummmm.. de barriga cheia, consegui acalmar-me. Decidi que era hora de voltar à vida mas..como? A porta do frigorífico estava fechada e a minha força de poucos centímetros não poderia ser suficiente para a abrir. Apercebi-me pela primeira vez da ratoeira onde tinha caído. E agora?..o que é que eu vou fazer à vida?...e se ninguém me encontrar? Senti uma angústia a subir, a subir e estava com um grito prestes a soltar-se quando a luz do frigorifico se acendeu. Alguém tinha aberto a porta e uma mão gigante caminhava já em direcção à taça das cerejas... Era agora ou nunca..uppaa.. num salto gigantesco consegui misturar-me na taça mesmo a tempo de ser agarrada pela mão..mas.. não!!!..não!!!..espera..NÃOFAÇASISSO....

Fui engolida..por mim!

Menos mal..já dentro do meu corpo, resgatei o tomate da prateleira de baixo, deixei-o a descansar em paz no caixote do lixo e voltei à cama sem perder o sorriso.

quinta-feira, agosto 3

A historia da Julia

Júlia estava determinada a mudar a sua vida. Deixou de fumar e adquiriu hábitos alimentares mais saudáveis. Sentiu-se mais forte e voltou a vontade de mudança. Largou o emprego e escolheu fazer só o que gostava. Mas o que gostava agora, era de morar sozinha. Falou com o marido, saiu do apartamento e fechou a porta a 12 anos de relação conjugal. Encontrou a casa com que sempre tinha sonhado e adormeceu a olhar para as estrelas. Não se lembrava de se sentir tão leve como nessa primeira manhã. Caminhava na berma da estrada com a sensação de voar na fronteira do céu. Deixou-se encadear pela luz do sol e bamboleou a anca ao som da sirene da ambulância que se aproximava.

uéuéuéuéuéuéué PUM uéuéuéuéuéuéué

A ambulância não parou ao ver o sangue de Júlia, por estar destinada a salvar o homem de 95 anos que trazia nas traseiras.

terça-feira, agosto 1

Aterragens difíceis..

Ela queria voar..toda a gente sabia..era tudo o que ela queria..
Experimentou os primeiros voos .. e, de repente..o céu ficou perto de mais..era preciso ir mais longe..agora .. o espaço era a sua meta..
Ela esperou pacientemente a oportunidade que finalmente chegou..pensar era perder tempo..era preciso..saltar..de cabeça se fosse preciso...

... um ano e meio depois, ela regressou mais calma..nunca chegou a Marte..nunca saiu daqueles 550 metros quadrados..

..agora..respirar o ar, com os pés bem assentes na terra..era tudo o que ela queria!!!